Análise do Festival Tomarock - Dead Fish 30 +1
O Festival Tomarock
Em
uma tarde de domingo no boêmio bairro da Lapa, na casa de show Agyto,
localizada na Avenida Mem de Sá, número 66; começava o Festival Tomarock, que
naquela edição apresentou shows das bandas Join The Dance, Circus, New Day
Rising e Plastic Fire, do Rio de Janeiro, e a grande anfitriã da
noite, a banda Dead Fish de Vitória (ES). A banda estava comemorando 31
anos de carreira, com um show repleto de clássicos de todas as fases da banda.
O
Dead Fish é uma das maiores bandas de hardcore do Brasil, já
participou dos festivais mais importantes do país e sempre lota shows nos
lugares em que passa. O show parecia um pouco mais intimista, já que a casa de
show suporta apenas 350 pessoas; a banda está acostumada a fazer shows no Circo
Voador, onde a capacidade é quase 6 vezes maior.
O
festival Tomarock surgiu em Duque de Caxias (RJ) e é o principal evento de Rock
da baixada fluminense e também realiza várias edições no Rio de Janeiro (RJ),
algumas em Magé, Campos dos Goytacazes, Petrópolis e Nova Iguaçu.
O
festival está muito ligado à cultura hardcore do Rio de Janeiro, isso se
manifestou principalmente nas edições do evento Mosh Pit Never Die, que
ocorria principalmente na antiga casa de shows Planet Music, no bairro
de Cascadura.
A
produtora adotou uma postura que está de acordo com o pensamento do movimento hardcore,
eles começaram a se manifestar nas redes sociais e em discursos antes dos
shows, sobre a situação política do país, sobre temas como racismo, lgbtfobia e
machismo, portanto, era comum discursos contra o presidente da República, Jair
Bolsonaro.
A
produtora fez um debate contundente em eventos de outros estilos de rock,
ambientes em que muitas vezes as pessoas não se interessam por assuntos
coletivos ou adoram uma postura neutra em momentos de efervescência política.
Isso não se encaixa na postura do público do hardcore, que quase sempre se
mantém em uma posição firme sobre vários assuntos da sociedade.
O movimento hardcore
O
hardcore surgiu na segunda metade da década de 1970, em uma segunda fase do
movimento punk. Adolescentes dos Estados Unidos, principalmente de Washington
DC, adotaram uma postura ainda mais agressiva do que o habitual do punk rock.
Algumas bandas expoentes do estilo surgiram da Califórnia, como o Dead Kennedys. O Bad Brains, de Washington, era uma representação mais crua daquele movimento que estava surgindo, uma banda formada por negros suburbanos que falavam sobre sentimentos de revolta e escreviam letras de contestação política e cultural. Uma das características marcantes também era a criação de fanzines e folhetos de cunho político, voltado às ideologias de esquerda, como o anarquismo.
O estilo adota uma postura diferente da maioria, pois está muito
ligado a estética mais descontraída e urbana e também na organização política.
Os músicos não apenas cantam, também organizam debates sobre feminismo,
antirracismo, veganismo, entre outras coisas.
Uma
das maiores manifestações desse movimento de contracultura é o movimento Straight
edge. Além do debate de cunho político, os Straight edge pregam o
fim da exploração animal e a vida sem álcool e drogas. A maioria dos grupos Straight
edge é de esquerda radical e pregam o fim do capitalismo, apesar de existir
uma minoria de direita. O símbolo que eles utilizam é um "x" nas mãos,
uma referência a um evento de hardcore que ocorreu nos Estados Unidos, onde os
adolescentes tinham que riscar um x na mão, para mostrarem que são menores de
idade e não poderiam consumir bebida alcoólica.
O público do festival chegou desde cedo, antes da primeira banda, Join the dance, começar. A faixa etária era em torno dos 19 aos 35 anos; a maioria do público era formado por homens, com piercings, tatuagens e roupas de estilo urbano, das mais variadas cores. As mulheres também estavam em grande quantidade, algo não muito normal em shows de heavy metal, por exemplo.
O público era formado por trabalhadores, em grande parte, negros e pardos (algo não muito comum em shows de outros estilos de rock). Havia muitas pessoas com camisetas homenageando líderes de esquerda e centro-esquerda, como Che Guevara, Fidel Castro, Lenin e também do então pré-candidato à presidência, Lula. Outra vestimenta muito comum era a camiseta do Movimento dos Trabalhadores sem-terra (MST).
O público claramente queria não apenas ouvir uma
música rápida, mas também queria expressar seus sentimentos de revolta e
descontentamento com a sociedade e com o sistema econômico. A música hardcore
funciona como um refúgio para vários problemas cotidianos e uma forma de
expressão de sentimentos reprimidos.
Join The Dance e Circus
A primeira banda subiu ao palco, Join the Dance. A banda tem como líder a vocalista La Veggie. As letras são formadas por questionamentos sobre a sociedade e, principalmente, sobre feminismo. No telão, aparecia a frase " o seu feminismo é inclusivo ou exclusivo?". A representatividade feminina é outra coisa que diferencia o hardcore de outros estilos dentro do Rock; há muitas bandas com vocal feminino, coisa não muito normal em outros estilos como o heavy metal.
O segundo show foi da banda Circus, formada pelo cientista social, Bernardo Tavares. No telão aparecia a frase "poder ao povo" e também imagens do pré-candidato Lula. Em um determinado momento, Bernardo falou sobre a necessidade de eleger o ex-presidente. Em seu discurso, alertou sobre o quanto seria nocivo um desperdício de voto em outro candidato sem chances de vencer Jair Bolsonaro. O público reagiu com gritos de "Lula" e palavras de ordem contra o presidente da República. Naquele momento começou a surgir o mosh pit.
O mosh pit
O mosh pit é uma dança em que pode ser realizada de diferentes formas, dependendo do estilo de rock. No rock, e suas vertentes como o punk e heavy metal, a dança é realizada com empurrões seguidos. Não é permitido socos, mas acidentalmente é normal acontecer no meio dos empurrões, e isso pode ser tolerado ou não.
Outra característica é o circle pit, nele o público corre em círculos, isso só ocorre em momentos mais dançantes da música. Algo muito comum é o stage dive, quando algumas pessoas sobem no palco e em seguida se jogam. Uma regra é a necessidade de outras segurarem o praticante do stage dive, caso contrário, poderá causar um acidente.
No hardcore, em especial alguns subgêneros como o hardcore beatdown, a dança é realizada de outra maneira. Nela as pessoas realizam movimentos circulares com os braços e dão chutes no ar, sem se encostarem; porém, se isso ocorre, é tolerado. Outra característica da dança do hardcore é o Two step. Se trata de uma dança em que as pessoas movimentam as pernas e os braços de acordo com o ritmo da música.
Em geral, o mosh pit apresenta uma maneira de expressar um sentimento de raiva, ódio, revolta ou apenas felicidade. Se trata de uma dança coletiva em que as pessoas participam ao lado de amigos ou desconhecidos, em ambos os casos há um senso de coletividade muito grande. Outro destaque é como a dor é encarada como uma expressão dos sentimentos e como isso é normalizado.
É aceitável, mas não tão comum, pessoas
torcerem o braço, ou perna, quebrarem dentes, machucarem o joelho, tudo isso no
mosh pit. A dor é vista como uma consequência prazerosa e todos se
ajudam e param o mosh pit caso alguém, por acaso, caia durante a
execução da dança ou se machuque.
New Day Rising e Dead Fish
O show da banda NDR foi marcado por mosh,
stage dive e discursos políticos. No telão, aparecia imagens de bailes funk
do Rio de Janeiro, enquanto no palco a música era rápida e pesada. No meio de
uma música para outra, o vocalista pediu o fim da polícia militar do Estado do
Rio de Janeiro. Uma das marcas da música hardcore sempre foi a crítica
às instituições policiais, seja no hardcore dos Estados Unidos ou do
Brasil, é uma característica comum. Em determinado momento do show o vocalista
soltou as palavras de ordem "socialismo ou barbárie" e mostrou apoio
ao candidato Lula, apesar das críticas à social democracia, muitos comunistas,
socialistas e até anarquistas, apoiaram o candidato naquele momento das
eleições.
Chegava ali o momento mais aguardado
da noite, a apresentação da banda Dead Fish. Antes do show, o produtor
Luciano Paz realizou um discurso antirracista e antifascista. Ele destacou que
não tolera qualquer tipo de opressão às minorias, afirmou que gostaria de
tornar qualquer evento um lugar seguro para todos. O público reagiu bem ao
discurso e logo começou o show da banda Dead Fish.
Dead fish é uma das maiores expoentes do hardcore
no Brasil; a banda de formou em Vitória no Espírito Santo, em 1991. Uma das
características dos shows da banda é o discurso político entre as músicas, não
apenas entre uma música e outra, mas as letras são totalmente focadas em ideias
da esquerda revolucionária. A banda não se classifica exatamente dentro de uma
vertente da esquerda, mas o discurso tem foco em ideias marxista-leninistas.
A segunda faixa do show foi a música "Sangue nas mãos". É uma crítica ao processo de impeachment da ex presidenta Dilma Rousseff e também a todos os acontecimentos que resultaram na eleição de Jair Bolsonaro.
"Sim, foi GOLPE!
Orquestrado
Por sorrisos velhos e apertos de mão
Rumo ao passado
A esperança das ruas de 2013
Catalisou aquele grande acordo nacional
Com o supremo
E com tudo
Pra estancar uma sangria
Em nome da família
E de um torturador" 🎶🎶
(LIMA, 2019)
A
terceira música do show foi "Não termina assim". Nessa faixa é
apresentada uma crítica à figura de Jair Bolsonaro que foi endossada pela mídia
e depois de um tempo trouxe o apoio da burguesia brasileira. Outro destaque da
letra é o discurso antiprivatista e uma referência ao discurso de vitória nas
eleições de 2018.
“Exílio ou prisão
Essas opções
Para quem se opõe
Não servem para nós”
(LIMA, 2019)
A
música "mulheres negras" gera comoção por parte do público. Uma fã
sobe no palco e começa a cantar a música inteira. É comum nessa parte do show,
o vocalista Rodrigo Lima chamar mulheres para subir no palco e depois fazerem
um stage dive. É notório a identificação causada pela letra, que exalta
as lutas das mulheres no Brasil.
“Mas então vamos lá,
lutar por um ideal.
Se viver é resistir,
então será...
E aí poderemos sorrir como mulheres negras,
que apesar de todo sofrimento se negam a chorar”
(LIMA, 1999)
Outro
destaque foi a canção "MST", que exalta a luta do Movimento dos
Trabalhadores sem-terra, movimento esse que luta por uma reforma agrária popular
e democrática. O vocalista Rodrigo Lima, em seus shows, sempre destaca que o
MST é o maior produtor de arroz integral (ORGÂNICO) do Brasil e que, segundo ele, não
haverá república sem reforma agrária.
“O campo brasileiro, continua produzindo sangue
E assistindo como no passado ao desfile de bandeira
Vermelhas, entre multidões de miseráveis sob o comando do MST
Combater a latifúndio, desapropriar, ocupar e distribuir.
As palavras de ordem
Resistem ao tempo como resistem a concentração fundiária
0, 9% dos produtores detém mais de 35% das terras
A ganância dessa elite já foi demais
400 anos de massacre também já é demais
Vou ocupar
Vou produzir
Vou resistir
Poder ao povo!!!”
(LIMA, 2002)
Em
um dos últimos momentos do show, antes da música "Venceremos" é feito
um discurso sobre a necessidade de eleger Lula e também sobre a urgência em se
organizar politicamente seja em sindicatos, em partidos políticos ou em
movimentos sociais. Essa música é um grito de protesto bem otimista em relação
ao futuro político do país.
“Veja, os garotos ainda estão aqui
Gritando por mudança
Veja, eles ainda acreditam
Em se unir, lutar, ganhar poder
Se não somos iguais
O que nos mata é sempre o mesmo
Se não estamos unidos
Saibamos o que derrubar
Venceremos!!!”
(LIMA, 2009)
Considerações Finais
Uma das maiores diferenças entre o hardcore brasileiro e o hardcore estadunidense é a perspectiva em relação ao futuro mostrada a partir das letras. Enquanto o hardcore dos Estados Unidos visa procurar formas de "humanizar" o capitalismo e conseguir mais direitos constitucionais, o hardcore brasileiro que está no terceiro mundo, na periferia do sistema capitalista, demonstra uma clara falta de esperança em relação ao sistema, às leis, ao sistema eleitoral e tudo que envolve o Estado.
O ambiente
do hardcore acaba se tornando cada vez mais anticapitalista, antiespecista,
antifascista e antirracista, sem sonhar em apenas melhorar o sistema vigente,
reconhecendo as limitações do sistema.
O
hardcore se tornou, ao longo do tempo, mais um convite à organização
política e um espaço de questionamento e aprendizado em relação às políticas de
esquerda, às vezes de forma mais velada, ou mais explícito. Apesar de uma
resistência por parte de setores do hardcore que se consideram apolíticos
e reproduzem discursos direitistas, o movimento cresce e se torna mais um
espaço de resistência, seja no Brasil, nos Estados Unidos, cada um com suas
especificidades e limitações.
Texto por Rodrigo da Silva Pereira

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