Sobre Marx e Marxismo
...com toda certeza ainda sofremos de males semelhantes aos do passado.
Não me prolongarei sobre a biografia de Marx, visto que já há muito material de fácil acesso sobre.
Nascido em 1818 e falecido em 1883, antes de completar seus 65 anos de idade, Marx, como não é de se espantar, foi um homem de seu tempo, e como tal, longe de representar qualquer subtração de seu legado intelectual, também apresentou alguns comportamentos que seriam reprovados por aqueles que hoje se aprofundam em suas obras.
Existem relatos de que teria tido um filho fora do casamento, filho este assumido supostamente por Engels, seu parceiro de vida e de intelecto.
Há também uma história de que teria menosprezado e se posicionado contra o casamento de sua segunda filha, devido a origem tropical de seu pretendente, história esta que acabou rendendo até mesmo um trabalho por parte de seu genro rejeitado, Paul Lafargue, intitulado O Direito à Preguiça.
Note-se que, até o seu falecimento, Marx não provocava o alvoroço que nos é exposto hoje quase que cotidianamente, e eu não digo aqui que seu trabalho não tenha possuído relevância à sua época. Mas qual o motivo de tanto alarde?
Será mesmo que as teorias marxistas possuem tanta relevância e atualidade, visto que, como disse certa vez, nem o próprio Marx se considerava marxista?
Um dos problemas em seu tempo, que Marx buscou compreender, foi a sociedade burguesa. Não o processo de formação de uma sociedade burguesa, mas uma sociedade burguesa já constituída, e para isso precisou ser radical, ir à raiz, ou seja, mergulhar no modo de produção capitalista. Colocado de outro modo, podemos dizer que Marx tentou compreender a forma ou o método de produção material de sua época e como esse modelo condicionava a vida social.
Sempre é interessante destacar que, apesar de ser uma figura de extrema importância para estudiosos autônomos e acadêmicos, principalmente pela extensão e abrangência de suas obras, Marx não pensou o mundo sozinho. Sua mentalidade é formada tendo como base filósofos como Hegel e Feuerbach, que construíram um campo fértil e provocativo de ideias ao jovem doutor.
Como para tudo que se constrói há um método, para Marx não poderia ser diferente. Ele acreditava que o que fazia as engrenagens da História girarem e as mudanças e revoluções ocorrerem era algo chamado Materialismo histórico e dialético. Mas do que isso se constitui?
Materialismo histórico significa que, o que constitui ou está na base das relações humanas, historicamente, são as condições materiais de produção, como as relações de trabalho as quais estamos submetidos socialmente, e como essas relações nos permite prover os subsídios dos quais a vida necessita, como moradia, alimentação, vestimentas, consumo de bens voláteis e pessoais e inter coetera. A vida material do homem determina sua consciência e sua relação com o mundo.
Nesse ponto podemos dizer que há uma infraestrutura material ou de condições de produção material (as fábricas, as ferramentas, a propriedade privada dos meios de produção, etc.) que se refletirá em uma superestrutura ideológica, de pensamento ou mentalidade (meritocracia, política, cultura, etc), que por sua vez justificará as condições e o método da infraestrutura.
A dialética é um termo também anterior a Marx. Utilizado na construção da maiêutica socrática, onde o embate de argumentos resultaria no parto de ideias e assim se poderia aproximar da verdade absoluta.
Dentro dessa concepção, de embate de ideias que gerarão novas ideias, Marx elaborará que a partir de uma tese ou algo que é posto materialmente na sociedade como o capitalismo ou a burguesia que terá como oposição ou antítese a luta do proletariado pelo fim de sua exploração, esse embate resultará em uma síntese, neste caso, o fim da propriedade privada dos meios de produção.
Marx reflete sobre o que estrutura a sociedade capitalista que é a reprodução do capital burguês e como esta reprodução está fundamentada na exploração da mais valia ou do valor excedente do trabalho da classe que é explorada pelo sistema vigente, o proletariado.
Outro ponto importante a se notar é a dinâmica que a dominação de classes coloca socialmente, a negação da dominação de classes. A classe dominante se organiza e se blinda com o poder e a estrutura do Estado, dessa maneira, a forma que o marxismo encontra para acabar com essa exploração do proletariado é a organização da classe explorada, o fim deste Estado burguês e o fim da propriedade privada dos meios de produção onde quem passará a controlar os recursos produtivos será o proletariado, através de organizações populares.
Em Marx, as contradições do processo dialético existem e estão postas, mesmo sem a percepção da exploração e o embate direto das classes exploradas, pois as classes dominantes precisam sufocar as possibilidades de empoderamento de seus explorados e se manter no poder. O que Marx diz é que este processo dialético, além de inevitável é previsível pois resultará em um sufocamento cada vez maior do proletariado que, por questão de tempo, enfrentará e derrubará seus algozes, fazendo com que as engrenagens da História girem e as estruturas da sociedade se modifiquem.
Em latim, a palavra alienatio significa estar separado de ou tomar algo de alguém. O conceito de alienação, assim como outros, não tem uma origem propriamente marxista, Hegel e Feuerbach já haviam elaborado conceitos para ela.
Mais uma vez Marx bebe na fonte de outros pensadores, dos idealistas, por exemplo, para elaborar seu materialismo. Obviamente isto não é nenhum demérito, visto que este é um processo natural de construção do conhecimento.
Não vou entrar nos conceitos hegeliano e feuerbachiano pois estes não são relevantes agora. Dentro da concepção marxista, alienação não está relacionado a conscientização ou informação, como o senso comum nos mostra. mas que o trabalhador ou o proletário está, pelas condições sócio-político-econômicas, alienado dos frutos de seu trabalho, ou seja, o trabalhador coloca sua essência e força de trabalho na criação de um produto que no final não o pertencerá.
Apesar de, no seu contexto histórico-nacional, Marx não ter presenciado um capitalismo desenvolvido, assim como ocorria na Inglaterra e na França de sua época, é nesta última que ele terá contato com a classe operária.
Muito anterior a nossa sociologia e economia atuais, essas ciências, à época podemos dizer ainda em descoberta, eram tratadas de forma mais condensada, como é o caso do termo economia-política. E é num texto desenvolvido por um jovem herdeiro industrial chamado Friedrich Engels, que Marx terá contato, que ele desenvolverá o que será fundamento e ponto de partida para a obra de sua vida, O Capital.
Em, Esboço para uma crítica da economia política de Engels, Marx compreenderá as já aqui citadas noções que embasam as estruturas da sociedade burguesa ou o materialismo marxista. As ideias ou concepções abstratas da sociedade são consequências das condições materiais que estruturam a vida dos homens. Marx não inventa a economia política, mas sim desenvolve uma crítica da mesma.
Dentro das concepções atuais, existem muitos estudiosos que se embasam nas teorias marxistas, todavia nem todos são ortodoxos. Tendo por parâmetro As teses sobre Feuerbach, onde são trabalhadas as noções de práxis dentro da concepção materialista e dialética, e a ideia de que o importante não são as concepções teóricas mas as ações e mudanças praticadas e efetivadas no mundo, alguns agentes do método marxista analisam que as ideias possuem uma relevância singular na História humana, principalmente no contexto moderno, pois é neste recorte histórico-moderno onde as convulsões ideológicas mais se afloraram, causando conflitos e algum nível de mudança na estrutura das sociedades.
Eu começo estes escritos com um questionamento. Se as teses de Marx possuem algum valor na sociedade atual? Tentando responder a esta pergunta eu aponto que as estruturas sociais pouco mudaram nestes dois séculos desde seu nascimento. Os meios de produção pertencem cada vez mais a uma minoria. Os homens ainda sobrevivem dos recursos que lhe são oriundos de sua força de trabalho e a cada dia que passa as estruturas de exploração e as condições de vida da classe trabalhadora se arrocham.
Não possuo base fiduciária e nem sou pretensioso ao ponto de impor conclusões definitivas, mas assim como Marx, eu posso pegar carona em grandes influenciadores e pensadores que constroem a contemporaneidade com o arcabouço deixado por Marx e dizer que, com toda certeza ainda sofremos de males semelhantes aos do passado.

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